Mário
Viegas (1948-1996) é considerado um dos melhores (senão mesmo o melhor)
actores portugueses da sua geração. Tendo iniciado a sua carreira aos quinze
anos de idade, deixou-nos consideráveis e extraordinários testemunhos do seu
amor pela arte, assim como do seu esforço, sem dúvida bem sucedido, para fazer
um trabalho de qualidade.
"Mário Viegas era um poeta, um homem que dizia poesia de uma forma admirável.
Era um grande actor e encenador e teve sempre uma liberdade de espírito e um
poder criativo extraordinário. Quem não se lembra da tão recente e espantosa
criação, continuamente renovada, que foi o espectáculo «Europa não!
Portugal nunca!!»?
Mário Viegas sempre deu o seu testemunho sobre a vida social e política e, além
de criador, foi um homem muito inserido no seu tempo, que deixa uma grande
obra."
(Dr. Jorge Sampaio, Presidente da República, citado in A Capital, 1 de Abril
de1996)
In http://www.cteatralchiado.pt/index.html
Mário Viegas
"Nascemos e durante a vida estamos à espera de uma coisa que nunca chegará,
que chega pouco... A vida sempre foi assim."
Mário Viegas (1948 - 1996), encenador, actor, declamador de raro talento,
interiorizou a poesia como poucos. Improvisou textos extraordinários, deu a
conhecer autores, disse o que tinha a dizer de Portugal e do mundo. Fez da sua
vida um poema de luta pelas ideias. Com radical desprezo pelo poder, foi Rei das
Berlengas e amante de Beckett, dos palcos, das palavras, do vinho e da verdade.
In http://www.citi.pt/cultura/musica/musicologos/victorino_almeida/mario_viegas.html
"A minha vida é o Teatro e o Teatro é a minha vida"
Entre o Teatro, a Poesia ( intitulava-se "recitador"), o Cinema, a
Televisão e a actividade Política/cultural, os 47 anos de vida de Mário
Viegas geraram riso e choro, amores e ódios.
Homem profundamente culto e consciente do mundo em que vivia, o espectador
recorda-o como Artista, mas também pela sua permanente atitude de critico
implacável e pelo seu característico estilo de humor.
In http://www.doc.ubi.pt/mario-viegas.html
Mário Viegas na memória da mãe
No próximo domingo, dia 1 de Abril, completam-se cinco anos sobre a morte do
ilustre escalabitano Mário Viegas, considerado por muitos o melhor actor da sua
geração. A sua mãe abriu-nos as portas da sua casa em Santarém para uma
visita guiada à memória do filho ilustre.
"1
de Abril de 1996. Mário Viegas morreu. Era um cómico que levava dentro de si
uma tragédia. Não me refiro à implacável doença que o matou, mas a um
sentimento dramático da existência que só os distraídos e superficiais não
eram capazes de perceber, embora ele o deixasse subir à tona da expressão às
vezes angustiada do olhar e ao ricto sempre sardónico e amargo da boca. Fazia
rir, mas não ria. Pouca gente em Portugal tem valido tanto."
José Saramago
(in Cadernos de Lanzarote)
Nas suas primeiras férias de Natal, após ter ingressado no Colégio Internato
Pio XII, em Lisboa, e ter passado o primeiro semestre longe de casa, Mário
Viegas anunciou aos pais: "Matriculei-me no Conservatório". Em meados
dos anos 60, num país em plena guerra colonial e governado por uma ditadura já
bolorenta, uma declaração destas poderia parecer bombástica. Não foi o caso.
António Mário Lopes Pereira Viegas, que na altura era ainda o António, filho
varão de uma linhagem de farmacêuticos do lado paterno, não ouviu nenhuma
reprimenda. O pai disse-lhe que esta era uma decisão dele. A mãe exclamou:
"Eu ficaria admirada se não tivesses tomado esta decisão".
O teatro era o caminho mais que natural para quem, no seu diário, aos treze
anos de idade, escrevia que o seu sonho era ser actor. Naquela noite de Natal,
António ainda ouviu da mãe: "Que faças o melhor". As palavras
revelaram-se quase proféticas. Raul Solnado - o único que poderia ocupar, na
história do teatro português contemporâneo, o lugar do filho de Francisco e
Mariana Viegas - sempre disse: "Ele é o melhor actor da nossa geração".
Espírita por convicção, apesar da educação católica, Mário Viegas sempre
acreditou nos desígnios da sua família. No seu livro auto-photo-biográfico,
com apenas duzentos exemplares editados, conta a história da sua família,
tanto do lado do pai como da mãe. Mário Viegas, que morreu há cinco anos,
dizia ser a encarnação do seu trisavô paterno, o famoso actor Francisco
Leoni, fundador do Teatro da Trindade.
Do lado da mãe, a história é mais comprida. O seu tio, António Cardoso Lopes
Júnior, foi o fundador da famosa revista de banda desenhada "O
Mosquito", pioneira em Portugal. A sua mãe, Mariana, aos dezoito anos, foi
convidada pelo irmão para dirigir o suplemento feminino da revista, denominado
"A Formiga". Assinava como Tia Nita e chegava a dar aconselhamento às
muitas cartas de raparigas que chegavam à redacção. Pela sua tenra idade,
nunca se deu a conhecer.
Com esta tradição de família e um ambiente propício, era natural que Mário
Viegas já brincasse aos quatro anos de idade com os fantoches que a mãe lhe
dera. Não era criança para brincar de carrinhos e passava os dias a ler,
fechado no quarto e a ensaiar as vozes das personagens que imaginava. Inventou o
Teatro ABC, criava as personagens e desenhava os cartazes das peças de
escrevia, espalhando-os pela casa. Já aos dez anos de idade, não havia festa
ou sarau em Santarém que não fosse convidado para apresentar o seu teatro,
sempre auxiliado pela sua irmã mais velha, Hélia Viegas.
Nos seus 47 anos de vida, Mário Viegas fundou várias companhias de teatro -
entre elas a "sua" Companhia do Chiado -, contracenou com Maria do Céu
Guerra, fez inúmeras sessões públicas com Zeca Afonso e outros cantores de
resistência, trabalhou com Carlos Avilez e encenou peças de vários autores,
com especial ênfase para a obra de Samuel Beckett. No cinema, encarnou
"Kilas, o Mau da Fita" (um dos filmes portugueses mais vistos de
sempre), trabalhou com Manoel de Oliveira e contracenou com Marcelo Mastroianni
e Victoria Abril. Na televisão, atingiu grande popularidade com o programa
"Palavras Ditas, entre 1978 e 1982. Ao longo da sua vida, gravou catorze
discos de poesia, onde declamou mais de 200 versos de Almada Negreiros,
Alexandre O'Neill, Pablo Neruda, Ruy Belo, entre muitos outros.
Nos seus últimos anos de vida, Mário Viegas não parou de surpreender. Autor
de seus próprios textos, concebeu "Europa, Não! Portugal Nunca!!",
um espectáculo em forma de conferência de imprensa onde personifica um
pseudocandidato à Presidência da República. Levou tão a sério a sua
preocupação com o estado geral do País, que participou nas eleições
legislativas de 1995 como candidato independente pela UDP. Um ano antes, era
galardoado por Mário Soares, então Presidente da República, com a Ordem do
Infante D. Henrique.
Dois meses antes da sua morte, a 1 de Abril de 1996, Mário Viegas entregou o
seu espólio pessoal a sua sobrinha, com quem viveu os seus três últimos anos
de vida. Ana Viegas é a filha que o actor não teve, nas palavras de sua mãe.
Pressentindo o fim da sua vida, ensinou à sobrinha o que fazer com o material
que acumulou, deixando instruções por escrito. Nos quadros que tanto gostava,
escreveu por detrás: "Este quadro custou tanto, se um dia venderem, não
se deixem morder", conta a mãe Mariana. Mesmo vivendo em Lisboa, Mário
Viegas vinha sempre aos fins-de-semana à casa de família, pois "tinha
saudades do seu quarto de garoto". Este quarto, onde ainda estão as suas
almofadas, os seus quadros, os seus livros, é hoje o lugar em que a sua mãe
gosta de sentar para escrever, à mesma secretária onde o filho criou as suas
peças na infância. Foi neste lugar que escreveu a "última carta ao
filho", que será o prefácio do catálogo da exposição que o Museu
Nacional do Teatro está a preparar sobre a vida do filho famoso.
Alexandre Cavalcante
In http://www.oribatejo.pt/capa2903.htm